Oh pequeno grande grilo falante

14 novembro 2021

série de ensaios: reconhecer o valor, ou patologias sobre nosso próprio valor

Um grilo com muletas. Assim comecei uma certa manhã de domingo quando, ao acordar, faço minhas meditações. São elas em MindScape, um estado alfa de mente que expande nossa consciência, podendo ser sobre determinado assunto. E perguntei: “qual é a “coisa” mais apropriada para me ensinar nessa manhã sobre falta, escassez?” E assim veio, um grilo com bengalas. Fiz algumas perguntas, percebi que havia movimentos de mente próprios do gatilho e crenças presentes em outra metodologia das Ciências da Vida, Breakthrough, tal como “se não for reconhecida, não terei valor”. E cheguei ainda, como uma jornada da mente sendo impulsionada pelo coração em poder saber, na natureza da vingança. Já fiz um vídeo sobre isso, faço aqui uma nota mental para você e para mim para recorrer a ele. Mas de toda maneira, a face doce da vingança, se é que ela teria isso, é uma pobreza de espírito em não poder ser, saber o que pode levar a uma doentia necessidade de reconhecimento.

Assim, uma cadeia de patologias da alma, da mente e do coração, e porque não dizer do corpo físico e emocional, explodem diante de mim. Posso até ouvir o baralho dos livros caindo da prateleira – isso não é só metafórico, já que em MindScape temos uma biblioteca ao nosso dispor, nessa tela poderosa da mente em alfa. Ao que tudo parece, estamos em meio a uma espécie de guerra do saber, onde toda uma cultura da nossa espécie “alma” está lutando por reconhecer-se diante da multidão, por ser importante, por ter e ser o valor que possui, porque, quem sabe, em uma das ilusões históricas da nossa humanidade, isso garanta que somos amados. 

O grilo me conta outra coisas. Como em uma fábula que tece sua teia para justificar nossa humanidade distorcida, torna-se o grilo falante. E isso me remete à história em que há um grilo falante. Ele é a consciência de Pinóquio. Simpático, bem arrumado até elegante, ele pode ser visto como um “querer ser”. Pinóquio queria tornar-se humano, queria ser livre, queria agradar o pai, seu construtor, ainda que talvez algumas dessas coisas podiam ser paradoxais, ou ainda tinham suas contradições. E como somos feitos de contradições, nossa consciência pode, em um certo nível, ser colocada no papel de “vozinha interior”. Apesar de ser mais que isso – a consciência está mais para o arquétipo do “mestre”, do “Eu Superior”, da “onisciência”, do “divino” – não é incomum termos na consciência nossas sombras refletidas e lustradas. 

E uma das sombras mais proeminentes para uma mente com suas dores é a necessidade de poder. Poder como uma garantia dada de existência, que estaria em oposição com o simplesmente ser. “Eu sou”. A consciência, portanto, fica reduzida a sua engrenagem que nos coloca em movimento, ainda que possa ser numa falsa direção. Falsa porque cheia de tropeços. Se você se sente tropeçando, se esquivando, indo e voltando, repetindo, grande parte da sua mente está ocupada com poder ser. Ainda não está entregue a simplesmente ser. O que é parte da nossa jornada. 

E voltando ao grilo falante, no meu caso foi um grilo com muletas – então você pode imaginar como foi intrigante – ele vem maroto, lúdico (nem um pouco triste com sua condição de muletas) mas também decidido, como é mesmo esse personagem quando aparece, ou seja, não há dúvida. Nesse caso, me parece, que “sem dúvida” é um sentimento de estar diante do que é. E o que é, o que se apresenta de fato? Você já deve ter se perguntado; e eu também, mas em MindScape vale deixar-se perceber, e não induzir o pensamento.

O que é quando um grilo faltante – minha consciência – está de muletas? O que é de fato quando um grilo falante se faz minha consciência e não necessariamente um personagem de maior envergadura? O que um grilo, em sua pequenez, fala da consciência? Ele é o verdadeiro salto de fé. Em diversas tradições, orientais, xamânicas, ou mesmo poderíamos sintonizar com o arquétipo que o grilo representa, é tudo que aparentemente pequeno, torna-se grande e infinito por natureza. É quando o merecimento de ser toma o lugar do querer ser, do poder ser, das artimanhas do ego. O grilo seria então agora o avesso de toda tentativa do ego de ser grande, porque pequeno ele é a própria sabedoria. Traz mudança, abundância, etc, etc, porque tudo mais é acrescentado quando se está na nossa natureza divina. 

Portanto, afinar os arquétipos que nos aparecem é sintonizar o valor da nossa expressão aquilo que é – talvez possamos estar ou precisar de muletas, talvez possamos nos livrar delas. Talvez nossa expressão de si, ou o valor no qual nos repousamos, aparente pequeno, mas dá grandes saltos. Talvez te surpreenda que “em pequenos frascos é que se encontram as melhores fragrâncias”. De toda maneira, o grilo traz uma mensagem de sabedoria.

E nesse ensaio, sabedoria é o bálsamo, ou antídoto, para o poder em desequilíbrio. O poder de ser pequeno e sábio pode ser justamente a voz em ressonância com nossa consciência. Amplifique-se. 

Nirvana Marinho, nov 2021