Sobre observar

14 setembro 2020

Foto por Skitterphoto em Pexels.com

Uma das coisas mais fascinantes de receber e fazer sessão de BodyTalk é observar as histórias de um outro jeito – não há expectativa, não precisa haver controle – o que há é observação. Um jeito de olhar, um contemplar, um reparar os sentidos que as histórias se fazem, se encontram e se remendam.

Quando era criança, me encantei com a arte porque era meu jeito de olhar a beleza – os olhos da arte são olhos nos quais a beleza e a feiura são o mesmo aspecto da mesma humanidade, ou seja, sempre lindos de ver. Tive uma professora de artes em Brasília, em tardes quentes em que o som do ventilador e o laranja da terra seca me faziam me sentir suspensa do tempo espaço. Uma vez por semana, por poucos anos, ia à escola de artes aprender a usar tinta óleo, lápis pastel e outros materiais, como nanquim e carvão, que eram a pura expressão da arte na pele. Assim como as outras artes que fazia – balé e música, essas, das texturas, me davam tardes idílicas, nas quais toda minha confessa inabilidade de desenhar era desfeita pela minha insistente vontade de aprender.

Minha professora disse algo que me conquistou no primeiro dia, com seus cabelos encaracolados e brilhantes como o sol daquela cidade; ela me ensinou a olhar. Disse que com as aulas eu iria não querer de parar de observar tudo a minha volta; que tudo teria cores e formas diferentes a cada aula em que me sentisse mais segura para o que era capaz de perceber. Meus olhos iriam procurar arte por toda parte.

Mas hoje percebo. Não era eu que olhava a arte; ela estava me olhando. Atenta e generosa, a arte me olhava como uma mãe. Sentir-me filha da arte me fez corajosa.

Quem diria que trinta anos depois eu iria continuar não sabendo desenhar mas que sim, aprendi a olhar as histórias da vida como se fossem arte. A arte de ser é das artes a mais bela e que se desenha com nossa observação. De si mesmos e com o olhar dos outros que nos desenham.

Olhar com clareza é um caminho sem paragem. Aprender a ver-se é uma prática espiritual. Se pegos pelo medo, pela expectativa, pela pressa e/ou a procrastinação, rápido seremos parados, paralisados pela cegueira. Portanto, exige certo tipo de fé. Olhar é um ato de fé. Acreditar sem precisar ter provas – não porque elas não existem ou não podem ser vividas mas porque não temos controle sobre elas. Não há garantias. Quando cegos, paramos em qualquer ponto a fim de retomar nossa capacidade artística de viver. Poder ver de novo com os olhos puros da existência.

Não foi minha professora, nem as árvores que pintei, nem as cores que me ensinaram a ver. Foi ver que me ensinou a saber mais sobre como vejo. Minha visão de mundo hoje como terapeuta depende exclusivamente da minha clareza interior de que minha visão depende de que, ao observar, eu possa meditar. Ao meditar, eu possa prescindir do controle. Ao me sentir genuinamente livre, eu possa observar as mudanças. E que, ao sentir a mudança chegando, eu possa abrir os braços, fechar os olhos, calmamente, continuar vendo e … contar histórias.

Nirvana Marinho