Onde começa sua dor?

22 de abril de 2020

Primeiro corpo, primeiro ar, primeiro dentro e primeiro lado de fora de nós mesmos, primeiro sonho, primeira doença, primeiro desapontamento… primeiro texto da nossa coluna.

Quando séculos nos convenceram que seriamos mente e matéria distintamente, temos uma missão recente de rever nossa percepção cartesiana de saúde. A tradição cartesiana que entende corpo como uma extensão separada e independente da mente pensante trouxe uma visão determinista de saúde, por assim dizer, também mecanicista, o que para psique tem consequências evidentes. Evidente que a história tem seus nós e os desata. Também ao mesmo tempo dessa ciência materialista, mais adiante no século XIX para XX, vimos o surgimento de abordagens da mente que atualizaram nossa percepção do consciente e inconsciente, dos sonhos e sombras, do corpo e de sua psicologia menos óbvia e mais cheia de mistérios. Não adoecemos porque está faltando uma peça “nesse relógio”. Nosso corpo não poderia permanecer muito tempo na história como se fosse uma máquina, ainda que você seja eficiente e busque atender muito bem ao que lhe pedido: “seja um bom menino” (já já vamos refletir sobre isso).

Meados de 1970, o biólogo Gregory Bateson, e também, de outro lado, o biólogo filósofo Humberto Maturana com sua teoria da cognição de Santiago foram divisores de água para uma visão sistêmica do corpo, digamos, interdisciplinar que envolvia biologia e psicologia. Também Frijtof Capra apresenta em meados da década de 90 sua compreensão sistêmica coerente da vida, da mente e da consciência, levando inclusive a uma visão espiritual e social de tal percepção sistêmica. A mente não seria mais conhecida como uma máquina, mas como um processo. Esse processo, mais complexo do que “o corpo definido por sua genética” ou “o corpo resultado do ambiente”, continha aspectos do aprendizado, da memória, estruturas de tomada de decisão e assim por diante. O ser corpo não se resumiria mais a uma equação; se fosse uma representação simbólica, seria uma matriz . O que estava em foco agora, nesta visão sistêmica do corpo mente, eram seus padrões e relações.

É com essa introdução científica e filosófica que começo a série de ensaios neste site que promete:

  1. trazer conhecimento – caso o ceticismo seja seu foco ou você seja como eu: ávido por conhecer;

2. trazer inspiração – caso você a busque e trazer o BodyTalk numa visão que inclua o saber de si, a reflexão de si e a cura de si, como um todo.

Você pode saber mais do que é BodyTalk no Canal Terapias de Consciência ou mais sobre a prática terapêutica do BodyTalk com colegas que concederam as entrevistas Bodytalkers falando de BodyTalk. Se quiser conhecer um pouco da história do BodyTalk no Brasil, veja neste link ou consulte a página oficinal da Associação Internacional de BodyTalk (IBA).

Acredito, e vivencio, que com conhecimento e inspiração nossa mente fica perto do coração e lidar com nossas sombras psíquicas fica menos difícil. Nossa vida biológica não poderia mesmo ficar reduzida a crenças de funcionamento – “seja um bom menino”, “faça, funcione assim, acredite nisso” – mas sim a atenção de um processo terapêutico pode te mostrar como lidar com seu sistema de crenças. O corpo não poderia ser mesmo uma máquina que quando adoece lidar com o sintoma bastaria. Resolve e deve ser feito, quando necessário. E se, também, uma terapia pudesse te relembrar como é ter saúde com consciência de si?

Nosso primeiro texto é um convite para você olhar para seu corpo, como se fosse a primeira vez. Olhar seus sintomas com um olhar de primeira vez: curioso, atento, um detetive dos seus segredos. Olhar para suas histórias com a generosidade que você gostaria de receber, quando seu olhar cobra isso do outro – “mas você não me escuta!”, frase que podemos dizer àqueles que queremos amor. Escute, olhe você, como se fosse a primeira vez. Uma espécie de apaixonamento. Uma quedinha por você, com tudo que tem aí. Um olhar afetivo, interessado. Dê atenção que você pede fora de você. Olha para seu corpo mente não como uma máquina que deve funcionar, mas como um processo cujas histórias podem ser como são, e desejam ser ouvidas. Talvez, quem sabe, sua dor começou quando você parou de olhar e escutar a si mesmo.

Nirvana Marinho, abril 2020