Mente ilusão, corpo sensação…

22 de maio de 2020

Como nossas histórias são da mente e são do corpo?

Gosto muito de observar como esses ensaios que escrevo são sincrônicos ao que estou observando, vivenciando ou refletindo, inclusive quando a sincronicidade também cuida das nossas dificuldades subjetivas, com acontecimentos ou acontecências (como minha filha, Catarina, chamou hoje). Aquilo que chega, ocorre, passa na “tela” do dia. Como se houvesse algo para ser visto, chamando atenção.

E o tema que me chama hoje é a natureza do corpo-mente. É nesse binômio que adoecemos, abrigamos nossos padrões e traumas, onde nossas memórias fazem sentido, mesmo que nos mantenham em algum tipo de looping, de repetição, de plena mas absurda concordância com o que chamamos de sofrimento. Por que insistimos? Quem insiste em sofrer? Qual parte de mim? Onde e porque dói e permanecemos?

O corpo-mente tem uma certa natureza: a mente, por um lado, que lida com o real e nos certifica que sabemos o que sabemos. Nossos filtros da percepção estão viciados, acostumados a ver de uma determinada forma, nossos pensamentos tem um determinado alcance ou treino, ainda que saibamos ou não, nossa mente se sente real. Por outro lado, complementar as vezes ambíguo mas completamente entrelaçado, nosso corpo também é, se sente, admite-se paradoxal, podendo estar incerto ou inseguro, ao mesmo tempo que seguro, firme, teimoso. Nosso corpo é nossa casa, onde todas as acontecências se dão. Nosso corpo é.

Nossas histórias são ao mesmo tempo da mente e do corpo. Dá uma sensação de vivência na causalidade, as vezes paradoxo, podendo ser confusão ou caminho. Corpo é. Mente insiste.

Mas Rumi, o famoso poeta indiano, nos ensina (citado por Deepak Chopra, 2005): “Esta não é a verdadeira realidade. A verdadeira realidade está atrás da cortina. Na verdade, não estamos aqui. Está é a nossa sombra”. E o próprio Chopra diz:

“Não podemos nem mesmo imaginar as complexas forças que estão por trás de cada evento que tem lugar na nossa vida. Existe uma conspiração de coincidências que tece a teia do carma ou destina e cria a vida individual de cada pessoa – a minha ou a sua. A única razão pela qual não experimentamos o sincronismo na vida do dia a dia é que não vivemos a partir do nível no qual ele está acontecendo. No geral, vemos apenas relacionamentos de causa e efeito, trajetórias lineares. No entanto, debaixo da superfície, algo mais está ocorrendo. Invisível para nós, existe toda uma rede de conexões”. (Chopra, 2005, pp 91).

Deepak Chopra

A ilusão e a sensação são nossas portas da percepção, como podemos tocar o viver e, quando afinados, com todas nossas contradições, essa é a pérola de ser: através da complexidade, posso sentir o que está invisível. Porque, veja, o que seria da nossa existência se tanta confusão, paradoxos, véus de “acho que”, nossa razão se encerrasse? Isso explicaria que quem sofre é quem se encerra na nossa limitação: ser da natureza complexa. As vezes confusa, as vezes sincrônica.

O que parece nos libertar nisso é ser através disso: não seremos fora nossos paradoxos. Isso, basicamente quer dizer que, segundo tais tradições metafísicas do corpo mente, nosso caminho, terapêutico e porque não dizer espiritual, é através das nossas sombras, ainda que confusas ou contraditórias, são nossa pista. Nosso corpo, nossa mente é um através.

Durante o caminho, te convido a contemplar os segredos. O que está por detrás. A avançar quando olhar estiver habituado a ver trajetórias lineares. A ouvir, cheirar, sentir o que está “algo mais ocorrendo”. Embora possa parecer invisível, a rede de conexões e acontecências não param por nossa (curta ou longa) cegueira, e esperam que possa celebrar nossa complexidade.

Por este contemplar, o caminho de auto conhecimento, a terapia do todo da saúde baseada em consciência como BodyTalk é, é um trabalho espiritual de consciência. Ter saúde é estar consciente dos seus paradoxos e ainda sim, e justamente por ele, vibrar muito. Celebrar mesmo. Ao invés de sofrer, seu corpo mente aprende a estar na sua natureza mais complexa. E devolver mais complexidade, o que costuma falar a voz do coração.

Nirvana Marinho, maio 2020