Cuidar de si é responsabilidade

14 de maio de 2020

Cuidado e responsabilidade, qual é essa estranha combinação?

Quando pensamos em cuidado ou mesmo auto cuidado, saber de si, algumas pessoas demonstram um certo receio, declinam, receiam, ensaiam em dizer: “mas isso dá trabalho…”. “Dá trabalho educar” – uma frase comum associada às mães ou ainda “ser mãe é padecer no paraíso”; “deus ajuda a quem cedo madruga”, como se o trabalho sempre fosse penoso e um sacrifício; “tu é responsável por aquilo que cativas”, tão lindo verso associado ao célebre livro “Pequeno Príncipe” de Saint-Exupery, tão clássico quando falamos do convite atento às relações, mas.. tão pesado não? O que mais…? “Mais uma DR?!” como se conversar com o parceiro ou parceira fosse um peso, uma discussão na qual sofrer é uma obrigação “chata”, sentir é um “de novo, mais uma vez, que saco…”, saber do outro é um jogo de culpa, remorso algo como “lá vem você de novo com essa queixa”, “nunca é suficiente para você”, “você não presta atenção em mim”.

Gostaria de chamar atenção como nesse conjunto de crenças que elenquei tem peso, como a mente é chamada a obrigação de atender ou de ser atendido. Gostaria de fazer uma mudança radical no seu olhar para as mesmas situações, com as responsabilidades que lhe cabem, experimentando talvez outras formas de contato, sensibilização, intimidade e conexão com o outro:

“É difícil para mim me expressar mas gostaria que você pudesse perceber como me sinto”.

“Sinto-me sobrecarregada mas também o prazer que vejo ao você crescer também me alegra, sobretudo se podemos trocar impressões sobre você ou sobre mim”.

“É duro, meu filho, ver você crescer mas me alegra saber mais de você quando você se abre e te conheço de outras formas”.

“Trabalhar é um ato de entrega dos meus tesouros. É difícil, muitas vezes me sinto desvalorizado(a), sobrecarregada(o), invisível até, mas ainda sim insisto em saber mais de mim na potência do que faço.”

“Trabalho porque quero”.

“Sinto-me responsável por mim e gostaria de poder partilhar isso com você – e se for assim, vice-versa, podemos crescer juntos”.

“Quando você reclama ou se queixa, sinto que devo fazer algo… é maior que eu mesma(o). Gostaria de sentir diferente, mas é difícil.”

“Sinto que você se sinta assim… gostaria de poder lhe abraçar e abrir espaços de acolhimento.. quem sabe assim podemos enxergar juntos um outro jeito”.

“Quero conversar contigo sobre nós porque te amo”.

O que te parece?

As palavras e frases são a forma mais autêntica de auto cuidado, de atenção, de presença, é um certificado que te assegura da sua possibilidade de permanecer em você mesmo(a). Se for confortável estar em você, se for saudável se manter em você mesmo com as feridas, buscar as palavras, a expressão de você é seu ato de amor próprio, de vaidade saudável porque é sua dança das palavras, é sedutor te ver e ouvir se expressar. Já se for desconfortável estar em você, incômodo, julgador, controlador, obrigação, peso, estafante, será assim com o outro também – sejam as relações, o trabalho, os amores.

Suas relações refletem a você sua potência de cuidar de si. Cuidar de si, nesse ponto de vista, é muito do que pode ser feito – é sua maior habilidade de responder, sua responsabilidade.

Cuidar de alguém reflete também como você se cuida. Mostra o valor que você concede a si mesmo. Os precisos segundos, minutos, horas, dias, anos e décadas que você convive com você é seu maior legado que, “por acaso”, será virtualmente percebido no seu trabalho, nas suas relações, nos seus amores. Cuidar destes é consequência. Como você tem se cuidado? O quanto você é capaz de fazer por você?

Nirvana Marinho, maio 2020