BodyTalk no Brasil: cartografia de caminhos possíveis

Panorama geral do Sistema BodyTalk

As práticas em saúde têm vivido uma grande transformação nas últimas décadas, com o surgimento de inúmeras técnicas e sistemas terapêuticos que reúnem conhecimentos de diferentes racionalidades terapêuticas e propõem novas abordagens de tratamentos. Apesar de compartilharem certos aspectos, cada sistema surge trazendo dinâmicas peculiares, e se organizando com uma estrutura própria, no sentido de formação, certificação e articulação entre seus praticantes. Em dependência desta organização, alcançam determinados espaços, traçando uma trajetória própria até se fazerem acessíveis para um público mais amplo. Neste trabalho, abordaremos os percursos percorrido pelo sistema terapêutico chamado BodyTalk System, presente no Brasil há 17 anos, porém ainda em processo de recente expansão no país. 

O Sistema BodyTalk foi criado em conjunto por John Veltheim e Esther Veltheim, em meados da década de 1990, na Austrália, e está composto por um conjunto de práticas que seguem em desenvolvimento e aprimoramento pelos seus criadores e outros colaboradores. Desde 2000, tudo o que é relativo ao sistema se organiza no âmbito da International BodyTalk Association (IBA), hoje situada na Flórida (EUA). Para fins de compreensão, podemos dizer que as práticas abarcadas pela IBA incluem o BodyTalk em si – como sistema terapêutico energético, aplicável numa relação terapeuta-cliente – e três eixos denominados “Ciências da Vida”, que incluem a técnica denominada MindScape, e os processos de FreeFall e BreackTrough. Estes últimos são processos de  auto-investigação pessoal e ampliação de percepção e sensibilidades terapêuticas. A Associação Internacional é o órgão de referência que estabelece os parâmetros para a formação continuada e para a certificação de terapeutas em todo o mundo. O Sistema BodyTalk está presente em 42 países atualmente, e em cada local encontra novas possibilidades e desafios no seu estabelecimento. 

Buscamos conhecer e apresentar como esse percurso tem se dado no Brasil, contribuindo para a compreensão de diversos aspectos, tanto para o público, como para os próprios terapeutas em formação e em exercício no país. Conforme mencionado, o BodyTalk é um campo de ação ainda recente no país, sendo que apenas no de 2019 surge a Associação Brasileira de BodyTalk, ainda em processo de conformação e consolidação. O percurso de formação no sistema, apesar de cumprir com um processo bem definido para certificação de terapeutas, se dá de maneira livre em termos de ritmo de realização dos cursos e de nível de aprofundamento nas etapas mais avançadas. Isso significa que cada pessoa define, a partir de suas próprias demandas, quando fará os cursos, em quanto tempo e como incorporar o BodyTalk em sua prática profissional. 

Por ser uma prática energética e não invasiva, não há pré-requisitos para a realização da formação, sendo aberta para pessoas sem formação de nível superior e com formações fora da área da saúde. Nesse sentido, é notável o número de pessoas que fazem a formação como parte de um processo pessoal de busca de conhecimento e autoconhecimento, porém não dão seguimento à prática como terapeutas. Apesar disso, existem hoje diversos profissionais de saúde de diversas áreas – psicologia, fisioterapia, odontologia, etc. – e também profissionais oriundos de outras áreas – ciências sociais, direito, administração, engenharia – que atuam hoje como terapeutas certificados de BodyTalk. É interessante notar que os cursos de formação acontecem em diferentes regiões do país, em períodos concentrados de alguns dias, permitindo um grande fluxo geográfico e temporal de pessoas. Essa liberdade e abertura traz desafios e riquezas de possibilidades, porém até hoje existe pouco estudo e registro sobre como foi se consolidando a prática do BodyTalk no Brasil, e como está hoje esse panorama. Por isso a importância desta cartografia, como trabalho preliminar que nos permite visualizar esses caminhos percorridos.

Da autoria da cartografia

Este trabalho é uma cartografia realizada por três terapeutas de BodyTalk, certificadas pela IBA, atuando em diferentes regiões do Brasil. É preciso apresentar-nos para fazer sentido dos olhares e trajetos aqui tecidos, já que são muitas nossas referências que ensinam que quem observa define a informação que se apresenta.

A precursora deste movimento foi Nirvana Marinho, com formação na área de Dança, doutorado em Comunicação, e terapeuta de BodyTalk desde 2015. Nestes quatro anos, teoria-prática-vivência-sentires tomaram conta do fazer de Nirvana, que além da clínica incluiu em seu trabalho de terapeuta textos e posts na prática atual de redes sociais, palestras, vivências e vídeos. Em 2019, nasce uma série de entrevistas chamada “BodyTalkers falando de BodyTalk” (disponível no YouTube), a fim de dar voz e empoderamento aos terapeutas de BodyTalk de todo país. Aproveitando as tecnologias existentes, a partir da curiosidade sobre os fluxos da prática entre colegas brasileiros, Nirvana lançou uma chamada àqueles que quisessem ser entrevistados, tendo como principal disparadoras as perguntas: como o BodyTalk entrou na sua vida?; como a transformou?; e como segue se apresentando nas suas práticas até hoje? Vale destacar que esta iniciativa surge como a possibilidade de gerar conversas, de provocar reflexões compartilhadas e, como consequência, mas não como fim, criar conteúdo passível de ser compartilhado em redes sociais. Nesse sentido, as conversas têm um sentido híbrido, perceptível em seu conteúdo, de estar falando entre pares, ao mesmo tempo em que se compartilham relatos de vida, e se apresentam desdobramentos e possibilidades das práticas terapêuticas para um público leigo. Nirvana convida cada colega para uma dança sem trilha definida, oferecendo algumas notas sonoras iniciais e deixando a música se revelar, provocando como resultado um espetáculo irrepetível, uma peça surgida da espontaneidade sem ensaio.

Foram realizadas em torno 20 entrevistas entre abril e agosto de 2019. Nesse ínterim, alguns acontecimentos se combinaram para trazer a importância de investigar os percursos históricos do BodyTalk no Brasil. Consideramos que é possível dizer que existe uma sequência de gerações ao longo destes 17 anos de presença deste sistema terapêutico no país e, devido a diversos fatores, essa informação permanece dispersa e não registrada. Ao longo de alguns meses de escuta nas conversas iniciais, Nirvana observou o potencial investigativo que a iniciativa das entrevistas desvelou, e criou a nova série “BodyTalkers falando de BodyTalk: nossa história”. Neste novo movimento de entrevistas, realizadas entre agosto e outubro de 2019, foram entrevistados 15 terapeutas que participaram em diferente momentos do BodyTalk no país, e através de suas falas foi possível perceber novas perspectivas e atravessamentos nesta história.

No entanto, uma coisa é gerar os registros e conteúdos, e outra empreitada é fazer um processo de sistematização e análise deste material. Uma das entrevistadas da primeira série, Ana Marcela Sarria, foi colega de Nirvana no primeiro curso de ambas de Fundamentos do BodyTalk, tem graduação e mestrado na área de Ciências Sociais, e expressou repetidas vezes seu interesse em trabalhar com pesquisas que integrassem esta prática terapêutica. O convite feito por Nirvana foi para poderem, juntas, consolidar um olhar cartográfico sobre o BodyTalk a partir do conteúdo produzido. Ana aceitou o convite por perceber que, de certa forma, este olhar analítico já estava em acontecendo no seu movimento de assistir às entrevistas dos colegas por iniciativa própria, por curiosidade de autorreflexão sobre o campo de atuação em que se encontra inserida. Atualmente, Ana é acadêmica do curso de Enfermagem, com o intuito de contribuir com a ampliação do acesso a práticas de saúde integrativas, entre as quais é possível entender o BodyTalk*, e nesse sentido o conteúdo criado a partir das entrevistas aparece como um material riquíssimo para ampliação desses olhares.

A ampla divulgação das entrevistas nas redes sociais gerou o movimento de vários terapeutas no sentido de assistir os colegas, desfrutando da possibilidade de conversas cruzadas, de espelhamentos ao ouvir uns aos outros, e de se repensar ao acompanhar o processo de seus pares. Foi o que aconteceu com a BodyTalker e antropóloga Daniele Pires, que se somou à iniciativa da pesquisa ao saber da elaboração do olhar cartográfico, também publicizado nas redes. Daniele se percebeu num movimento sincrônico de registro e sistematização de ideias chave das entrevistas às quais foi assistindo, e entrou como colaboradora nesta criação a múltiplas mãos.

Pode-se considerar, portanto, que este é um projeto polifônico, construído por múltiplas vozes e escutas cruzadas, revelando encontros de tempos e espaços, costurando visões e práticas de uma egrégora, de uma matriz. O fato de o principal conteúdo que gera estas reflexões estar disponível ao público, nas entrevistas divulgadas na internet, convida para a ampla possibilidade de interpretações e compreensões do que este movimento possa gerar. Porém, ao nos debruçarmos sobre este conteúdo a partir de nossas vivências, de nossas percepções e trajetórias pessoais e profissionais, imprimimos nossa própria observação – atravessada por filtros que explicitamos sempre que possível – e criamos algo novo, uma cartografia sensível sobre um corpo terapêutico em constante movimento.

Ana Marcela Sarria

março 2020

*Mesmo que atualmente não esteja listada entre as 29 Práticas Integrativas e Complementares em Saúde atualmente vigentes nas portarias ministeriais nº 971 (03/05/2006), nº 1.600 (17/06/2006) e suas atualizações de 2018, a prática do BodyTalk está contemplada no levantamento preliminar que segue em avaliação para a inserção de novas práticas integrativas no SUS.

Para conhecer o trabalho de Ana Marcela Sarria, por favor, escreva para
#51 9317-8777 @anamarcelabodytalk instagram

Para conhecer o trabalho de Daniele Pires, por favor, escreva para 
#51 997882215
danipiresrs@gmail.com