Ah, o encantamento

29 setembro 2020

Foto por Artem Beliaikin em Pexels.com

Sabem, recomecei uma jornada – ou deveria mesmo dizer que continuei a mesma pois nunca arte e terapia estiveram tão especialmente interligadas na minha percepção de vida – mas, de fato digo, recomecei uma jornada profissional com o curso de Fundamentos, em maio de 2015, onde aprende-se a maior parte do protocolo de atendimento do BodyTalk. E me lembro de ter dito algo na minha apresentação pessoal que me marcou: “quero me apaixonar”. Gostava muito, e ainda aprecio muito minha trajetória profissional em dança, no entanto, algo de fato começava ali. A paixão é um início, embora nunca tenha terminado de fato.

Isso me traz à reflexão deste ensaio de hoje para trazer o BodyTalk a vida vivida, as experiências, que, quem sabem, possam também ser suas, partilhem entre nós o viver, tão como ele é: as vezes, complicado, enrolado, as vezes, leve, fluido. Assim é. E não menos sincrônico, essa que vos escreve se apaixona mais uma vez na vida, assim como tem sido com BodyTalk e suas práticas, tal como o MindScape.

O encantamento é uma faísca da paixão, um convite a abertura, uma entrada clássica no salão do baile, com sua melhor roupagem de si mesma, sua melhor fragrância, uma dança. A questão é que as vezes, e eu entendo bem disso graças aos palcos que já estive, nem sempre a dança é sobre prazer, ou somente sobre a alegria. É também sobre o medo. Sobre a dúvida. Sobre a insegurança. Faz parte da dança seus opostos. Faz parte do encantamento, o abismo.

Então a paixão faz sua cena. Invade, ocupa, te fascina. Assim é também na prática espiritual. Assim é em alguns movimentos novos da vida: o encantamento que leva a paixão te dá uma leve certeza de que esse é o caminho. E você vai. Segue. Flui. E se depara com o modo com o qual você foi ensinado a fluir: com leveza? com cobrança? com apoio ou sem nenhum? com diálogo ou no silêncio forçado? Como você se entrega? Como você dança?

A paixão mantém o movimento vivo, autêntico. O artista é apaixonado, inclusive pela dor. E ser humano é uma condição dada de querer o estado de liberdade, que combina muito com o desejo de dançar a vida. O que chamamos superficialmente de ser feliz.

Contudo, a liberdade é uma face da paixão, não toda ela. Podemos nos perder se não nos soltarmos porque prendemos o que sentimos; e podemos também, por outro lado, nos perder de tão soltos. A fiel medida de nossa entrega só se faz a medida em que aprendemos a nos entregar.

O BodyTalk é uma dança da não dualidade, é uma jornada também física, mental, emocional e, sobretudo, espiritual, de saber escalar sua alma: quando e como você solta, em que você se apoia, como você aprecia a paisagem, como você veleja. Tais metáforas de prazer e gozo não precisam ser um prêmio da conquista, podem ser a própria jornada. Viver em amor.

O momento em que partilho essas percepções me apaixono e amo, assim como espero encontrar você em estado de encantamento, paixão, amor, livre de crenças que te impeçam de ser você mesma, mesmo. Pelo simples fato de que o viver que o BodyTalk convida não tem ilusões, é o viver tal como é. E isso inclui suas paixões, seus devaneios, suas incertezas, e também seu potencial, a elasticidade do seu coração e sua vontade de ser você.

Alguns mestres da Advaita Vedanta já nos avisaram que o caminho espiritual não é sobre chegar, nem tão pouco sobre ser algo, e sim simplesmente sobre “Eu sou”. O encantamento é um suspiro do “Eu sou”. E assim, apaixonar-se, amar não são degraus do seu merecimento (ou da sua confusão), são naturezas de você.

Te desejo um linda primavera!

Nirvana Marinho