Espiã 3o. Ciclo

Verdades Temporárias no Fantástico Mundo da Sinceridade
por Vanessa Lopes

Uma vez que me foi permitido, vou colando os fatos de acordo com minha cachola!!

O que você sempre quis dançar? Logo de cara perguntou o Gabriel Brito Nunes.

Era uma vez…
Um príncipe que virou teoria, que virou sereia, que virou a Barbie bailarina, que virou dança…
Aplausos para Jorge Alencar que, com sinceridade, seduziu a platéia com sua voz doce e afinada. Salve Jorge, em primeiro lugar por saber cantar e em segundo por jamais perder o rebolado.
Em um ato seu corpo causou numa dança cantada, rolada, provocante, sem em nenhum momento perder o bom humor. Causou uma linda tensão entre o desejo de ser com o ridículo de pretender ser. Quem nunca cantou um hit do Freddie Mercury no chuveiro? Logo no começo da performance já deu vontade de colocar um tubinho preto e pular em cima daquele piano. Afinal, para ser sincera, sempre desejei ser uma diva.
É sobre isso que pretendo dialogar, desejos e vontades em detrimento de pragmáticas possibilidades que a realidade oferece. E o 3º ciclo do Trepadeira foi assim: deliciosamente delirante, concreto e possível (tudo junto ao mesmo tempo).
A apresentação de “Um corpo que causa” abriu um portal para o mundo dos desejos que podem ser realizados. A mesa estava posta para o dia seguinte, a tarefa agora seria abrir o apetite dos participantes. Foi então que o bastão foi passado para Dudude Herrmann, que veio direto da zona do pasto para nos estufar e fazer brotar um estado de performance, traduzido por ela mesma como: células aglutinadas + já!
Uma vez na estufa, partimos da premissa de que o corpo quer dançar. Então buscamos um estado corporal compositório a partir das demandas e urgências criadas naquele instante. Estado este que poderia aparecer e desaparecer, passível de ser encontrado somente a partir do momento em que o corpo experimentasse entrar e sair dele. Todos prontos? São 5h16, nos encontramos nessa sala às 6h30 e neste momento será o fim. Ao ataque!!
Ao som de musica baiana, nos permitimos dançar numa longa improvisação. Ora com um, ora com outro, ora com vários, ora com objetos, ora com o espaço, ora com uma cor, ora com um som, ora com uma imagem, ora bolas, pirolas e cachambolas.
Nossa, eu tinha esquecido de como é bom se deixar levar. Sentir o suor escorrer pelo corpo e o coração bater mais rápido. Fiquei feliz em cruzar algumas vezes o tal estado de performance. Quanta coisa pode concretizar a imaginação. Naquela noite fui dormir com um sorriso no canto da boca.
O domingão no ciclo da sinceridade foi assim: todo mundo chegou faminto. No cardápio tivemos Gabriel Britto Nunes com uma penca de desejos. Não é que o safado colocou na roda os desejos de todo mundo que estava participando? Nham, nham, nham. Que delícia de coreografia.
Vamos aos fatos. Gabriel reuniu no seu cú o que as pessoas que estiveram presentes durante o ciclo sempre quiseram dançar. Os desejos foram escritos em balões de hélio e depois redistribuídos aleatoriamente entre a moçada. Cada pessoa pendurou no seu corpo três danças. Fomos todos pra rua cheios de desejos alheios. A cada dança executada, seu respectivo balão era cortado. No final, todos os balões que sobraram foram soltos ao mesmo tempo. Neste momento, fomos estimulados a retomar nosso desejo inicial. Eu sempre quis dançar uma folha sendo levada pelo vento, e assim foi a minha dança, levada pelo céu de São Paulo.
Participar do Trepadeira foi como se aventurar por uma road trip, em que o importante não é o destino em que se quer chegar, mas o prazer de vivenciar cada pedaço do caminho percorrido. Ninguém tinha a mínima idéia do que iria acontecer nesta experiência, mas senti que cada um a seu modo se permitiu participar de um delírio coletivo, que, com sinceridade, se tornou realidade.
Ué, mas como pode tudo isso? Acho difícil, difícil mesmo, dificílimo. Trabalho de formiguinha, né Lívia? Muitos anos são necessários pra se construir uma nova dança.
Tem o mundo lá fora, o fucking edital, a burocracia, as regras, o curador, os dispositivos de poder, a falta de grana…ai, como tudo é tão difícil. Sem falar nos perigos da dança. “Não há dúvida que está realmente mesmo cada vez ainda muito mais difícil”.
Mas espera aí, quanta dificuldade…
Veja bem, não estamos aqui soltando desejos pelo céu de São Paulo? Então pode ser difícil, mas não impossível, certo? Então o que você põe na roda?
Sim, verba pública para manter a chama acesa, para respirar mais fundo, para garantir alguma autonomia com relação aos nossos desejos. Eu sei que posso ser uma sonhadora delirante, mas o mais legal de tudo isso é que terminei meu domingo com a certeza de que I’m not the only one.
Esta espionagem toda me colocou numa grande nuvem de poeira. Cheguei num ponto interessante entre a imaginação e a realidade, em que uma serve de refresco pra outra e ambas atingem o campo da incerteza. Aliás, se existe alguma certeza, certamente é a de que 3º Ciclo Trepadeira levantou poeira!!

Vanessa Lopes
Artista, produtora e pesquisadora de caráter híbrido e multifuncional. Mestranda em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Graduada em Comunicação das Artes do Corpo, pela PUC-SP. Em sua produtora, a INdependente – produção e arte, coordena a criação, gestão, produção e comunicação de projetos culturais.
independentecontato@gmail.com

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