Pensamentos acerca de uma curadoria movida por afetos

por Bruna Antonelli

Modos de estar

Trepadeira – Modos de Criação Compartilhados, projeto de programação da Sala Crisantempo, com curadoria assinada em trio: Bruna Antonelli, Nirvana Marinho e Petterson Costa.

Algumas inquietações: Poderia uma curadoria ser pautada a partir da idéia de convidar criadores a partilharem seus modos de fazer dança? Poderia essa ser uma partilha de afetos, do sensível?

As questões que não param de nos legar a longa história da “partilha do sensível” (Rancière) é que uma obra não deve continuar a ser a propriedade somente daqueles que se autodenominam ou se erigem sempre um pouco rápido demais em “herdeiros legítimos”. Muito ao contrário, ela deve pertencer a todos que experimentam a necessidade de pensar sobre ela, a quem quer que esteja em condições de se apropriar singularmente delas.(Christophe Wavelet: Nijinski, ainda)

Porque não convidar artistas e público para nos “apropriarmos singularmente” de uma obra? Que uma obra possa servir para construirmos um convívio ao redor dela, que ela nos afete. “Usá-la” para que sirva como um lugar de memória onde depois poderemos fazer uma Estufa, um Piquenique, uma reflexão e então uma nova obra a partir dela.

Os lugares de memória são antes de tudo restos. São lugares de memória aqueles que escapam da história, que complicam o simples exercício da memória como um jogo de interrogação sobre a própria memória. Lugares de memória constituem um lugar duplo: um lugar de excesso, fechado sobre si mesmo, fechado sobre sua identidade, e recolhido sobre seu nome, mas constantemente aberto sobre a extensão de suas significações.

(Pierre Nora: Entre Memória e História, a problemática dos lugares)

Modos de fazer

Uma curadoria movida por afetos significa também pensar um modo de fazer comum, e assim, encontramos nos artistas convidados uma característica que os une: são “artistas-etc”.

“O artista-etc traz para o primeiro plano conexões entre arte e vida e arte e comunidades, abrindo caminho para a rica e curiosa mistura entre singularidade e acaso, diferenças culturais e sociais, e o pensamento”. São aqueles que têm “fortes ligações com os circuitos locais que estão inseridos” […] e que “questionam a natureza e a função de seu papel como artista”. (Ricardo Basbaum: Amo os artistas-etc).

Acreditamos que os “artistas-etc” convidados estão abertos para questionar o seu fazer, disponíveis para compartilhar modos de criação e processos de produção que tornaram possível uma obra.

E acima de tudo: disponíveis para que possamos pensar a partir de “sua” obra, tornando assim “sua” obra “nossa”, e de todos aqueles que desejem apropriar-se singularmente “dela”.

Esta é, portanto, uma curadoria também feita por “artistas-etc”, que se desafiaram a tentar o campo de “artista-curador”, tentando pensar modos de compartilhar, modos de estar, modos de criação compartilhados, em rede, ou até em árvore – mas só da espécie trepadeira!